quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Chapetuba Futebol Clube.

Finalmente fui conferir como ficou o Teatro de Arena depois da reforma que durou quase 2 anos.

Fiquei feliz com o resultado final: ao contrário de outros espaços que são submetidos a reformas e se transformam em espaços megalômanos ou passam a exibir programação duvidosa - como o TBC (de uma linha mais conservadora, mas indispensável à renovação do teatro paulistano), que após a reforma de 1999 voltou com programação mais voltada às comédias populares, em dinâmica televisiva -, o Teatro de Arena continua sendo um espaço aconchegante, mas sem muitos luxos, e parece se manter forte em seu principal intuito: fazer teatro politizado e acessível, fator cada vez menos relacionado ao gênero por conta das grandes montagens estrangeiras e da disseminação da dita "comédia stand-up". Conheço pouco dos dois gêneros, mas sou firme na ideia de que pode haver espetáculo de tudo (e não há mal nenhum nisso, afinal, há demanda), mas que teatro é uma coisa só. Teatro é dialética, pesquisa, revolução. O teatro pisca ao público, chama à reflexão, questiona. E o riso desanarquizado e as superproduções com o mero intuito de encher os olhos preenchem (se é que preenchem, enquanto teatro) apenas parcialmente essa função essencial. É por isso que esses pequenos espaços de resistência do teatro autêntico, que sobrevivem sem fomentos milionários, com projeto dedicado à busca incessante de uma identidade nacional, com artistas que se orgulham de seu ofício - e por isso o executam - são louváveis, porque de uma nobreza e paixão imensas.

Flávio Tolenzani
Para celebrar a reinaguração do Arena, está em cartaz Chapetuba F.C., do Vianninha, com direção de José Renato, fundador da companhia - o que remete aos primórdios do grupo, já que a primeira montagem da obra foi realizada neste espaço, em 1959.

A peça mostra os esforços de uma equipe de futebol interiorana rumo à primeira divisão, apesar da interferência de jogadores e empresários corruptos que movimentam a máquina capitalista que se alimenta da paixão regional pelo esporte. Assim, jogos são manipulados, jogadores são comprados, exigências despropositadas são feitas. Ao final, pouco resta senão a sensação de impotência. A questão primordial está longe de ser tão-somente uma crítica ao futebol; remete à história brasileira, aos esforços do cidadão comum, sonhador e idealista, em seguir adiante apesar das amarras burocráticas, das convenções externas e do capital como força motriz. Como o Arena, Chapetuba F.C. trespassa parte importante da história nacional, formando um mosaico de valores do cidadão brasileiro.

Não poderia haver peça melhor para celebrar esta nova fase do indispensável Arena.