segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Feelings, nothing more than feelings.

La Persistència de la Memòria - Salvador Dalí, 1931













A minha memória é um fenômeno curioso: é impressionante o quanto vou perdendo a capacidade de memorizar determinados tipos de informação conforme o tempo passa. Esqueço regras, palavras do meu e de outros idiomas, padrões, notícias importantes, fatos históricos, trabalhos feitos. Esqueço tudo.

Das lembranças, tenho comigo, com riqueza de detalhes, alguns fatos relativamente sem relevância - para os outros: lembro exatamente de cores, cheiros, frases, sensações. Sabores de sorvetes e sucos pedidos, pizzarias, lanchonetes. Risadas, piadas, declarações. Viagens. Brigas.

Dos livros e das músicas de que gosto me esqueço dos autores. Esqueço o nome dos livros. Esqueço o nome das músicas, dos cantores, das bandas. Dos filmes e diretores. Lembro de trechos específicos, melodias. De paisagens que crio na minha cabeça. De pessoas, rostos, sorrisos, nomes. Esqueço de datas, detalhes de momentos históricos. Planilhas, projetos.

Como tudo é virtual, basta um detalhe digitado para que o google me leve àquilo de que minha memória me privou. Eu me esforço, tento lembrar de tudo por conta. Em vão.

Ter memória sentimental é vergonhoso: você sempre passa por otário por se lembrar de fatos para os quais ninguém dá a mínima importância. Ninguém se interessa pela reação de um amigo antigo que a saudade te fez ir visitar de madrugada. O perfume usado em um primeiro encontro. As luzes de um bar, de uma cidade.

Não ter memória intelectual é marginalizante. Um grande profissional tem de saber de tudo, o tempo todo. Ou fingir - coisa que, apesar dos meus constantes esforços, não aprendi a fazer.

Como sempre, é tudo muito exato. E eu sou, vergonhosamente, toda sentimento.