terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Quem Quer Ser Um Milionário?

Do you want the life of a slumdog or the life of a man?
[Pergunta feita pelo explorador de crianças a Salim, ao vê-lo titubear em chamar o irmão, Jamal, para ser cegado.]

Quem Quer Ser Um Milionário? (Slumdog Millionaire), que deve aportar por aqui em março, com distribuição da EuropaFilmes, certamente vai agradar muito ao público brasileiro. Tem todos os ingredientes pertencentes à realidade tupiniquim: arquitetura da pobreza, abuso de autoridade, personagens marginalizados, exploração infantil, intolerância e a eterna lei do mais forte. A direção, por sua vez, prioriza lentes ágeis, cores e inversões de câmeras, remetendo em muitos momentos ao nosso Cidade de Deus - com direito à galinha, menores armados e tudo o mais.

Mas, independentemente de o filme pegar de jeito ou não o espectador por aqui, uma coisa é fato: o roteiro é fabuloso. Livremente adaptado de Q&A, romance de estreia do diplomata indiano Vikas Swarup, o enredo conduz ao destino final de um jovem auxiliar de call center de Mumbai que atravessa a história de transformação da Índia - passando pela intolerância religiosa entre hindus e muçulmanos - para mostrar como e para que ele chegou ao programa.

Divulgação
Para escapar de torturadores, Jamal (o excelente Dev Patel) deve explicar como soube responder às questões do gameshow Who Wants to be a Millionaire? (programa de perguntas e respostas de origem norte-americana que teve seu equivalente brasileiro transmitido pelo SBT - Show do Milhão), apesar de ser um simples "servidor de chás" pouco alfabetizado. Para isso, ele conta com detalhes histórias de sua infância e adolescência nas quais teve contato direto com o objeto das perguntas feitas. Daí o nome em português fazer referência direta ao programa, a despeito do título original, Slumdog Millionaire (em português, algo como Trombadinha Milionário). Dentro desse enredo, a direção se mostra ágil em amarrar as perguntas do programa a fatos políticos e sociais da Índia, sem forçar a barra.

O resumo da ópera é: o filme é uma explosão de imagens e informações, prende a atenção do início ao final, tem um excelente ritmo e proporciona ao espectador desde risos a indignação. Além disso, apresenta um mosaico de paradoxos a partir dos irmãos protagonistas: mostra a inocência perdida e a inocência não-perdida, e os caminhos possíveis a partir dessas características. No entanto, peca ao se valer de clichês hollywoodianos - como ao redimir o irmão, no final da fita, para viabilizar o desfecho da trama amorosa.

O filme é permeado pela ideia em voga do yes, we can, mas, clichês à parte, o grande mérito desta produção é revelar ao mundo, com muitas de suas cores, a vida no segundo país mais populoso do planeta. Talvez não com as cores certas, já que o elenco e a equipe técnica são híbridos, mas com aquelas que permitem um primeiro olhar mais curioso por parte do ocidente.

Fato é: com a boa mão da direção de Danny Boyle (Trainspotting, 1996), o roteiro fabuloso de Simon Beaufoy e as atuações cuidadas, o filme tem tudo para faturar muitas estatuetas no Oscar - também pela qualidade do filme, mas, sobretudo, pela atual importância da Índia no mundo econômico.

[Dica: não deixe de ver os créditos finais ao melhor estilo Flashdance.]