segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A merda nossa de cada dia.

Era pra ser um sábado de sol como naquela música do Monokini. Não fosse eu ter resolvido ir pra casa dormir. Explico: as noites de sábado no meu bairro agora são regadas a jovens na loja de conveniência do posto de gasolina da rua da frente com seus carros de portas abertas e som ligado no último volume, com "gloriosos" sets que vão desde eletrônica até funk.

A questão: não vejo problema nenhum com o gosto alheio. As pessoas têm direito a tudo. Só queria que me deixassem fora disso. Mas, não, elas não deixam. Sempre acham que você tem que se divertir com o que elas se divertem, tem de ouvir o que elas ouvem, gostar do que elas gostam. Por isso, ouvem música alta, falam alto. Porque todo mundo sempre gosta do melhor e se acha no direito de te forçar a essa lobotomia por osmose em toda parte.

Sábado, enquanto eu não conseguia dormir por conta do barulho, pensei em muitas coisas. Uma delas foi que, de fato, é louvável a campanha de desarmamento. Porque eu, que nunca matei uma formiga, pensei seriamente em sair com uma bazuca, mandando um balaço logo de cara numa das bombas do posto de gasolina. Le gustan la gasolina, coños? Pensei em corpos por todos os lados, fogos de artifício de membros humanos por todo o céu. Ma lil' fish ligou, sugeriu que eu chamasse a polícia. A polícia! Ri. Fui tirar o esmalte vermelho descascado, tomar um leite com canela. Coloquei um fone enorme nos ouvidos, Wilson das Neves. Mas nada era capaz de isolar o barulho de fora. Como no momento do desespero a gente acredita em tudo, liguei pra polícia. E fiquei comovida quando o policial que me atendeu disse que os destacamentos disponíveis estavam todos envolvidos em ações de segurança pública. Imaginei os policiais pela rua, combatendo o crime, saving the day as mighty mouse.

Fiz a queixa, disse que aguardava a solução. O cara disse que iria fazer o seu melhor. Esperei. Deitada, revirando pela cama. Pelo sofá. Pelo chão. Mais desespero, e agora a tevê ligada. E desligada em seguida. Tentei adiantar uma tradução, assistir ao filme que quero ver desde a semana passada, terminar o livro do Ruffato, escrever um conto. Nada.

5h da manhã, e ouvi as palavras "melancia" e "bunda" vindo das caixas de som dos carros na loja de conveniência. O limite. Liguei pra polícia de novo. Um tal Eduardo atendeu. Pensei em falar umas verdades sobre a mãe dele. Sugerir os lugares prováveis onde a mulher dele deveria estar àquela hora - ah, se devia estar! Mas, ao contrário, falei toda eduardosuplicy. Ele, por sua vez, foi muito gentil: sugeriu que eu entrasse no site da prefeitura para fazer a queixa. Assim, em 30 dias, uma turminha muito da bacana iria até o local alvo da reclamação pra ver o que poderia ser feito. 30 dias. Falei que parecia um prazo bastante razoável, mas que eu gostaria de dormir naquela noite. Ele achou complicado. A partir daí, não me lembro exatamente do que falei, nem em qual momento exato desliguei o telefone. Ou arremessei.

Quando já eram quase 6h da manhã, o som parou. O sol - por isso. Chorei de raiva até sabe-se lá que horas. Pela sensação de impotência, por essa burocracia maldita, por quem acha que o mundo deveria ser sua merda de bolha de sabão expandida. Se eu soubesse em qual andar as coisas simplesmente não são esta merda nossa de cada dia, já teria apertado o botão e descido. Mas eu não sei.

Enquanto isso, fico neste limbo, esperando uma coisa que eu não sei o quê.