terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Não sobre o amor.

Não sobre a peça.

Quando Werther (em exercício junto ao embaixador) escreve a Carlota, sua carta obedece ao seguinte plano: 1. Que alegria pensar em você! 2. Encontro-me aqui num meio mundano, e, sem você, sinto-me bem sozinho; 3. Encontrei alguém (a senhorita B) que se parece com você e com quem posso falar de você; 4. Faço votos de que possamos nos reunir. - Uma única informação é variada, ao modo de um tema musical: penso em você.

Que quer dizer isto, "pensar em alguém"? Quer dizer: esquecê-lo (sem esquecimento, não há vida possível), e despertar muitas vezes desse esquecimento. Muitas coisas, por associação, inserem você em meu discurso. "Pensar em você" não quer dizer nada mais do que esta metonímia. Pois, em si, esse pensamento é vazio: não o penso; simplesmente, faço-o retornar (na medida mesma em que o esqueço). É a esta forma (a este ritmo) que chamo pensamento: nada tenho a dizer a você, senão que este nada é a você que o digo.

[trecho de Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes]

Sobre a peça.
Texto, cenários, trilha sonora e interpretações excelentes; tiques cinematográficos levemente incômodos; sinestesia; discurso solitário de um amor metalinguístico; a palavra além do que se sente.


Imperdível.

Sutil Companhia 15 anos - Repertório