segunda-feira, 30 de março de 2009

Dadinho é o caralho.

De repente, não mais que de repente, ligam perguntando se eu topo dar aulas de francês naquela escola de idiomas bacana. E aí eu, que desde que pedi as contas pra viver de frila tô topando até dançar a hula em velório, respondi o quê? Que não, claro. Explico: puta gente chata que curte aprender francês. Aliás, foi o que me fez desistir de ensinar esse idioma. Impressionante como as pessoas se deslumbram com a França, com Parrrrri e o diabo a quatro. Entendam, crianças: a França não é o paraíso. Há monumentos históricos maravilhosos, a culinária é divina e a paisagem é encantadora até mesmo em cartão postal amassado, mas é uma sociedade que só vive de glórias passadas. Ou alguém sabe dizer o que a França tem criado de bom hoje em dia? A economia anda em frangalhos, a política social é péssima e os revolucionários de hoje em dia são um bando de adolescentes desmiolados e, literalmente, desocupados - vide os atuais índices franceses de desemprego. Tem uma meia dúzia de coisas bacanas que eu adoro (e, certamente, não estou me referindo ao Godard), mas a turminha entusiasta é tão mala que dá até mal-estar dizer que gosto de alguma coisa de lá. É um lance meio fantasma da ópera: say the world, and I will follow you. Tem de saber os antecedentes criminais do camarada pra poder falar de França com ele, senão é dor de cabeça pro resto da vida, na certa.

O drama maior é o pessoal que supõe que quem sabe esse idioma (que, sim, acho lindo, juntamente com o italiano e o português) é um poço de fineza, requinte e que logo na entrada de casa tem um piano de cauda herdado pela vovó, uma pianista renomada que foi amiga de Piaf - aliás, esse possível status explica, inclusive, por que algumas pessoas fazem curso de francês. Eu tenho uma revelação bombástica: sou uma lascada, não tenho um Peugeot 0km, fui pro sertão nas últimas férias e curto uma feijoada.

Parafraseando Chico, agora falando sério: aprender qualquer idioma é excelente. É uma forma de se ter propriedade e ciência plena do que é dito por outras culturas, sem interferências e manipulações. Mas isso de usar o idioma pra ostentar uma suposta supremacia - e o pior: a supremacia da decadência alheia - me deprime. Visitem a França, tirem fotos, conheçam os lugares maravilhosos, os restaurantes, os museus - enfim, tudo o que não fiz. Mas não me venham tratar como se eu fosse desse clubinho de paga-paus deslumbrados e phinos (com ph, pra intelligentsia). Eu passo.