quinta-feira, 5 de março de 2009

Geografia de um DNA distante.

Na natureza selvagem

São muitas as impressões de uma viagem longa de carro Brasil adentro. Muito foi visto, ouvido, sentido, e todas essas experiências tiveram um caráter tão único que fica difícil transpor em palavras a dimensão exata de cada mínimo acontecimento. Mas é impossível não falar das fabulosas montanhas mineiras por toda a extensão da BR 116; das curvas aveludadas; do código dos caminhoneiros ao longo da estrada, alertando ou censurando com seus gestos, lanternas e buzinas; do nascer e do pôr-do-sol em Extrema – a imagem de ocaso mais linda que já vi na vida; dos urubus atentos à beira das rodovias; do balé das nuvens e do ponto onde todos os lados remetem a um céu extremamente azul – o lugar onde o mundo é redondo; das pessoas saqueando um caminhão recém-tombado que transportava papel higiênico, sem se preocuparem com o motorista preso nas ferragens; do serviço 190 inativo em emergências como essa; do forte apelo turístico das cidades mineiras e da fartura; do apelo religioso das cidades baianas e da escassez; das longas retas intermináveis; das borboletas se lançando contra o para-brisa; da estátua de Antônio Conselheiro contemplando a visão magnífica de Canudos, do alto do monte; das pessoas ignorando quem foi Antônio Conselheiro; das informações e iluminação precárias ao longo das estradas; das crianças e adolescentes com roupas insinuantes tentando atrair caminhoneiros; das cores do sertão; do fabuloso arco-íris depois de uma tempestade no sertão; da minha família; de tudo o que descobri que quero e que não quero ser; dos vícios herdados; das bondades que eu gostaria de herdar; das tolerâncias; das intolerâncias; das covardias disfarçadas de altruísmo; dos recalques; do amor verdadeiro; do amor por medo da solidão; das conveniências; do café-da-manhã com a família à mesa; das colheitas de frutas no pé; dos bodes e vacas nas calçadas; das sabedorias; das crenças; das piadas do meu pai na estrada; das camaradagens; das buscas; das descobertas; do sorriso do meu pai saindo do mar; de tudo o que não conhecia em mim, e reconheci nos outros; das igrejas do centro histórico de Salvador; da Bahia de todos os santos; da agressividade comercial no Pelourinho; do sol, que derrete os problemas e incendeia as paixões; das crianças miseráveis na Baixa do Sapateiro; das cores desgastadas da Cidade Baixa; das cores da praia; das baianas dançando; da solidariedade; da mesquinhez.

Foram quase seis mil km de geografia apressada que me conduziram a um DNA desconhecido. Mas faltam ainda muitos quilômetros pra formar a minha arquitetura interna. E agora eu sei o quanto ainda tenho que percorrer, ver, sentir.

[A minha avó? Vai bem, obrigada.]