terça-feira, 17 de março de 2009

No coletivo.

Página 97. Para um pouco pra olhar pela janela.
Calor de 32º. Ônibus parado. O inferno. Um sujeito de terno e gravata, suor pingando, passa a catraca. Olha em sua direção. Sorri. Deve ser pra outra. Ele para ao lado do banco.

-Com licença, senhorita, posso sentar?
-Pode, ué.

Abre a página. Retoma a leitura. O sujeito tira um livro da pasta cheia de marcas de dedo suadas. Pega uns papéis, vira-se pra ela.

-Desculpa, posso interromper?
-...
-É só pra te perguntar uma coisa importante, você permite?
-...
-Moça, você conhece a palavra?

Pausa.

-Conhece, moça?
-Conheço, várias. Inclusive tenho umas tantas aqui pra ler, se é que você me entende...
-Ah! (risos) Não, moça, não é dessa palavra que eu estou falando, não!
-Pois é, mas eu estou falando dessas.
-E eu estou falando DA palavra do senhor. Já conhece o senhor?
-(Respira fundo) Vários. Matei 3 semana passada.

Pausa.

-Matou? Como assim, matou?
-Vieram com um papo de palavra e tal. Estressei. Matei.
-Ah... Acho que a senhorita não quer me ouvir, é isso?
-Pois é...
-Mesmo com um coração tão perturbado, não vai querer ouvir a palavra?
-Não, inclusive não quero mais ouvir nenhuma sua.

Silêncio.

-Bom. Vou descer no próximo, moça. Que Deus nosso senhor a abençoe e a proteja.
-...
-Tchau.
-...