terça-feira, 26 de maio de 2009

Get out of town.

Não há um único dia de minha vidinha bandida em que eu não considere a hipótese de sumir de S. Paulo. Não porque eu não goste daqui, mas o fato é que tenho uma relação de amor e ódio com a cidade: não me imagino fora daqui; por outro lado, é insuportável viver aqui. É muita gente por toda parte, tudo muito cheio, muito disputado, muito procurado (ingressos esgotados, filas intermináveis, esperas longas, reservas impossíveis). Muito trânsito, barulho, ruas sujas. Gente estressada partout, a rapaziada vivendo cada dia como se fosse o último e barbarizando geral. Intolerância, falta de educação. Não porque necessariamente a maioria das pessoas seja assim; fato é que sempre as características ruins se sobressaem e, com tanta gente em circulação, fica facinho achar problema a rodo por aqui.

Eu moro num lugar onde as principais aventuras locais até bem pouco tempo atrás resumiam-se a ter de tirar o cavalo do vizinho da garagem - sim, meu vizinho tem (tinha?) um cavalo -, ter de espantar morcego grudado na parede ou contar esquilos. Tipo, Judas nem sabia da existência deste lugar pra perder qualquer parte de seu vestuariozinho retrô por estas bandas. Todo mundo se conhecia - pro bem e pro mal -, o Centro era uma coisa distante e só foi ter ônibus por aqui quando duas doidas sequestraram um coletivo e disseram que só liberavam o motorista quando fosse cedida uma linha pra rapaziada daqui. Essa foi a mordida da maçã. Anos depois, o que acontece é que não consigo ficar com a janela da sala aberta porque sempre tem um caminhão fedorento com o motor ligado praticamente na minha calçada. Não consigo chegar a lugar nenhum entre 7h e 21h porque convivo com trânsito na porta da minha casa. Minha casa, que fica nos confins da capital. Que fica à margem do planeta. O cavalo do vizinho deve ter morrido de desgosto, porque faz bem uns 5 anos que não preciso advinhar como diabos ele veio parar na minha garagem. O fim, sabe?

Daí que em meio a essa melancolia urbana toda, aparece um convite todo bonitinho pra ir trabalhar no interior. Numa cidade minúscula e ensolarada onde todo mundo anda a pé e de bicicleta e onde ainda tem quitanda, flores em toda parte, aquela coisa romântica toda de estrelas. E aí eu nem queria saber mais desse negócio de trabalhar dentro de uma empresa, porque meu referencial era o mundo bandido da pauliceia desvairada, mas quando penso na possibilidade de largar tudo aqui, vender o carro e respirar ar puro num lugar bonito e de céu azul meu pulmão fica todo feliz.

O problema é que não dá pra mudar o núcleo da minha trama comigo: rapaziada vai ficar aqui, e a cidade não é tão perto pra eu correr pros braços da galera se rolar uma saudade. Nada de Funhouse, Exquisito, Espaço Unibanco, Mocotó, BH. Pós, só se for em Agronomia, e por aí vai.

Toda vez que penso na minha relação com S. Paulo, lembro do Cole Porter mandando a amada ir catar coquinho em outro lugar. Eles se amam, mas não rola de os dois ficarem juntos porque um faz mal pro outro. A questão é: ruim com ela, pior sem ela? Que faço com você e comigo, hein?, S. Paulo. Me diz.

Drama to be continued...