quinta-feira, 7 de maio de 2009

Nunca saia pra pegar as cartas de pijama.

A maior diversão de se trabalhar em casa quando se mora em uma província é o agradável encontro com a vizinhança. Explico: fui buscar as cartas na caixinha, de pijama, e encontro uma vizinha que eu não via há séculos. Ela pergunta por que é que estou em casa a uma hora destas. Digo que estou trabalhando em casa e tal, e ela questiona como é que eu, que nunca gostei nem de lavar louça, posso dizer uma coisa dessas e pergunta porque não estou mais dando aula de russo. E eu digo que não é russo, é francês, e faz 4 anos que parei, e que não virei faxineira, não, que trabalho em casa, "no computador", de tradutora, revisora e essas-coisas-de-gente-que-não-gosta-de-trabalhar-de-verdade. Pra parecer simpática, mas a maldição é que ela concorda, e conta que quem trabalha mesmo é a filha, que trabalha com telemarketing e (atente para o "e") está ganhando a graninha dela, até comprou um carrinho zero (enquanto olhava com piedade e desdém pro meu jurássico ka 98). E aí engata um papo dizendo que não é pra eu me abalar, não (e aí me perguntei por que diabos não aderi ainda ao Renew ou ao Chronos), que logo eu arranjo alguma coisa, que a vida é assim mesmo, cheia de altos e baixos. E me dá um beijinho e afaga os cabelos e eu até sinto uma vontadezinha de ser a criatura mais infeliz do universo naquele momento só pra me sentir afagada. Mas, em vez disso, entrei ciente de que aqui nestas minhas agradabilíssimas terras de palmeiras, esquilos, morcegos e sabiás ninguém nunca vai me entender. E é por isso que eu preciso tomar, literalmente, meu rumo.