sexta-feira, 29 de maio de 2009

O lugar certo do que não deveria ser.

Queria ser outra, mas uma espécie de conspiração bem articulada - embora infantil - pôs tudo a perder. A outra, a que queria ser, não passava de um feto malformado, de histórico arredio e lugar-comum em todo e qualquer episódio mal-sucedido de cunho social. Não sabia dançar, mas gostava de; não sabia cantar, mas gostava de. De gostava-de e muitas vergonhas crescia, sem saber onde pôr os pés debaixo da mesa e como movimentar os talheres para pedir socorro. Ninguém ouvia, e o grito abafado era um batom retocado - com licença. já volto. obrigada - no banheiro. Sempre cheio. As conversinhas que o iPod evitava nas ruas entravam todas como os ácaros em fúria de um ar-condicionado ligado na repartição pública. Fumar seria um pretexto que evitaria muita coisa. A outra, uma outra, quem sabe, fumaria. Fumaria até os pulmões trincarem. E teria uma tatuagem enorme, um RG visível do que sou a despeito do papel e a 3x4. Um cachorro devorando o couro do sofá lamberia meu rosto anêmico. Minha felicidade doentia, minha felicidade. Minha. Mas tudo, como antes, é tarde demais. A dança é o toque do telefone e dos dedos-em-código-de-barras no teclado. O canto são as memórias perdidas em alguma montanha úmida e hostil na qual nunca estive. O tempo, implacavelmente, põe tudo em seu devido lugar. 

O lugar certo para tudo aquilo que não deveria ser.