segunda-feira, 11 de maio de 2009

Quebrando um espelho por dia.

É surreal saber que ainda existem grupos neonazistas em pleno século 21. O pior: grupos formados por gente nova e numerosa, que deveria ter superado a visão arrogante e infundada de pertencer a uma suposta supremacia étnica há tempos, relegando esse tipo de mentalidade a um monstruoso reinado de intolerância e barbárie atribuído a mentalidades retrógradas, e não progressistas, que assombraram a história universal. Mas, ao contrário, a ideia de segregação ainda atinge níveis bastante preocupantes, e não apenas por conta dos adoradores de Hitler.

É comum, na zona norte de S. Paulo, ver jovens bolivianos (ou famílias inteiras dessa nacionalidade) passeando aos finais de semana - único período nos quais não estão confinados sob vergonhosos salários e exaustivas jornadas de trabalho em minúsculos ateliês de costura clandestinos. Estima-se, atualmente, em cerca de 120 mil o número de bolivianos (entre clandestinos e legais) que aportaram no Brasil em busca de melhores oportunidades. E, dentre os inúmeros problemas de adaptação comum a qualquer imigrante, esses sofrem, e muito, de um específico: o preconceito - que beira, muitas vezes, à agressão, como já testemunhei várias vezes.

Comum também é o preconceito contra nordestinos, que, preocupantemente, atravessa as décadas. Como os negros, muitas vezes vistos pela ignorância arrogante como resquício de uma civilização servil, os nordestinos remetem à imagem do flagelado submetido na cidade grande. A nobreza e a resistência que levaram à construção da civilização brasileira ficam de lado nesse julgamento, e o que persiste é o estereótipo, um conceito torto e pré-concebido acerca daquilo que se desconhece, mas que se rotula com a pressa de quem repudia sua própria origem: a de dominação, resistência e miscigenação, uma constante desde a "descoberta" do Brasil.

Parte disso pode ser atribuído a velhos preconceitos arraigados na autonegação; outra parte, à arrogância narcisista da juventude livre, que renega seus vínculos e enaltece sua pretensa supremacia.

Em resumo, o preconceito étnico no Brasil representa um espelho quebrado por dia. Mas o outro sempre será nossa imagem e semelhança. E é a essa conclusão que se foge.