quarta-feira, 17 de junho de 2009

Fresh feeling.

Tradutor, segundo conceito da rapaziada, é um camarada que serve para transpor com exatidão para uma língua todos os termos imagináveis, como se a palavra pertencesse a uma ciência exata. Mas, contrariando as expectativas relacionadas ao meu ofício, sou partidária da ideia de que algumas coisas simplesmente não têm tradução, e nem devem ter, pois pertencem a um conceito universal - ou, antes, sentimental - que supera o referencial semântico. Mesmo porque certos termos são cunhados de forma que relativiza pobremente conceitos de abrangência muito maior, ou, então, muito particular de uma cultura. Daí, dia desses, no rádio, ouvi uma música maravilhosa chamada Fresh Feeling e cheguei à definitiva conclusão de que racionalizar tudo, principalmente as palavras, é uma camisa-de-força muito cruel e castradora que vem de uma tradição na qual a exatidão é mais importante do que a compreensão e o significado reais das coisas. Nem tudo precisa de tradução; é como o inglês que se apaixona perdidamente por uma russa com quem conversa mesmo sem entender uma única palavra do idioma em Bonecas Russas (ainda que precise aprender o idioma para pedi-la em casamento). Por isso, fresh feeling, assim como a nossa saudade e tantos outros termos afetivos, deve ser um patrimônio tombado e considerado artigo de primeira necessidade na cesta básica vital de qualquer ser humano. Tombado sem tradução; só com o sentimento, que é universal como o 2 + 2, tão exato, no papel.