quarta-feira, 24 de junho de 2009

A Rússia não morreu.

Estou eu ontem à noite na única praça de alimentação aberta madrugada adentro perto de casa e, enquanto eu mastigava um hambúrguer insosso (a considerar, nesse episódio, a máxima do Betinho de que quem tem fome tem pressa) -, observo uma família boteriana chegando. Nenhuma crítica quanto a isso, mesmo porque tudo indica que em breve eu serei a personificação do Garantido ou do Caprichoso (é só uma questão de decidir se gosto mais de azul ou de vermelho). A questão é que, em plena madrugada, lá estava o trio com um bebê no carrinho. Um bebê, numa fila de fast-food, num frio da peste. Daí, a certa altura, a nanocriaturinha fez jus à sua categoria e abriu um berreiro copioso. O que mostra que, daquela família, alguém tinha consciência de que havia algo de inaceitável naquela situação. Até aí, o contexto só demonstrava falta de bom senso considerável com vertente potencialmente cômica, nada além disso. Acontece que, passado o período surreal de instalação da família em uma mesa - o que quase envolveu o assassinato de uma oriental por conta de uma bandejada violentíssima desferida involuntariamente pela filha adolescente do casal (lembremos que era um trio boteriano + bebê) -, olho com piedade pra criança e vejo a mãe abrindo euforicamente uma caixa de Mc Lanche Feliz "pra minha menininha faminta". Daí o que seguiu foi uma sequência bizarra de batatas, refrigerante, hambúrguer e até um sundae (!) enfiados goela abaixo de uma criança que não devia ter sequer 1 ano. O pior: a criança comia com tanta vontade que tive a certeza de que era uma constante essa alimentação primorosa na vida da rebenta. Não preciso dizer que a criança tinha as coxas do tamanho das minhas - o que seria um feito considerável até pra alguém da minha idade. Enfim, vendo isso, a coisa toda deixou de ter graça, e comecei a pensar em como a noção de família e educação virou um conceito tão... fast-food. Aí fiquei cheia de vergonha alheia, com uma vontade absurda de ligar pro Ibama, pra vigilância sanitária. Pra SuperNanny. Vendo a outra filha do casal, adolescente, comendo toda desajeitada, de cabeça baixa, com ar melancólico, quase dou uma de Wilma (aquela do caso Pedrinho) e fujo com a bebê. Quase. Mas, como sempre, fiquei ali parada, simplesmente pensando que não deveria ser assim.



A frase do título é de uma figuraça cheia de teorias doidas, anarquistas e surreais que faz aula comigo na pós. Não tem a ver com a postagem, mas, toda vez que presencio uma situação surreal, lembro disso.