quarta-feira, 22 de julho de 2009

Teatro para quem?


Cena de Corpo Estranho, de Lourenço Mutarelli.

Por excelência, arte pressupõe público, por ser matéria ativa que depende de interpretação para existir. No caso do teatro, esse pressuposto quebra a barreira da distância existente em outras artes, pois exige interação presencial entre artista e público - condição cuja ausência relega esta arte a não-existência. O que dizer então de um teatro feito sem a pretensão de ter público? Essa é a curiosa proposta do Teatro Para Alguém, criado pela artista Renata Jesion. A ideia é simples: fazer teatro (enquanto forma) virtualmente, para que este se converta em arte para quem tiver vontade de assisti-la, em qualquer lugar, a qualquer hora. Para isso, basta acessar o site, entrar na sala de estar, executar o vídeo e acompanhar as imagens. Há também a possibilidade de ver outras peças do projeto que não estejam mais em "cartaz", acessando o porão. Além desses "cômodos", há uma série de outros prontos a serem explorados pelo público. Basta um clique, e voilà.

Não é difícil se deixar seduzir pela novidade. Além do formato, que não exige deslocamento e custos da parte do público, o produto é um material acima da média - em termos de matéria audiovisual: as filmagens são bem-feitas, a iluminação é competente, os atores são envolventes (como o excelente elenco da série de miniemcenas Corpo Estranho), as direções (elenco, fotografia e arte) são contemporâneas e seguras, e os textos (de autores como Lourenço Mutarelli, Antônio Prata e Alberto Guzik) são incríveis. Não há dúvida de que o produto é muito bom, e que a ideia promove uma nova estética para a forma teatro. A questão é: pode-se dizer que o resultado é teatro integral sem o pressuposto de público e sem interação? Sem a reação explícita do público no momento de execução (reagente indispensável para o produto final), de que forma é possível realizar teatro? Como manter a dinâmica da forma sem a visão integral da cena - já que ficamos condicionados à visão da câmera?

São dúvidas que o formato não consegue solucionar. Apesar da qualidade, mostra-se apenas como uma inovação bem-cuidada para as artes audiovisuais e como alternativa nestes tempos em que ainda não temos soluções efetivas em larga escala para baratear o acesso do grande público ao teatro. Mas vale o incentivo (o projeto aceita doações, já que ainda não conta com patrocinadores), a visita e a divulgação.