quarta-feira, 29 de julho de 2009

Eu não te amo mais.

Fui ontem à exposição Cuide de Você, da artista Sophie Calle (aquela que tomou um célebre fora do escritor Grégoire Boullier por e-mail e fez questão de partilhar com a rapaziada), em cartaz no Sesc Pompeia, e não pude deixar, de certa forma, de achar graça no que vi.

O resultado da exposição, enquanto arte, é acima da média (considerando-se o nonsense padrão bienal de entretenimento), mas a maioria das intervenções é solidária a uma espécie de código secreto feminino: trata o autor da carta como um criminoso, alguém que infringiu regras de um jogo que, por princípio, não tem regras. Tem de tudo: interpretações típicas de amante-ferida-e-despeitada, como a da revisora que aponta algumas tantas dezenas de erros de ortografia e sintaxe, a divertida (mas não menos ressentida) interpretação da cartunista que retrata o escritor como um sádico que elaborou um texto repleto de frases feitas, tiradas de manuais, a interpretação prantosa de uma desiludida cantora lírica e o boletim de ocorrência registrado por uma delegada. Em comum, a maioria das interpretações culpa - com maior ou menor grau de dramaticidade - o escritor pelo fim do romance.

Observando as interpretações dadas pelas 107 mulheres convocadas por Sophie, mais a espécie de confraternização e catarse do público presente, pensei em por qual motivo se culpa o outro por um amor que acabou. É fácil se reconhecer em uma situação pela qual a maioria dos mortais já passou - o fim de um relacionamento -, mas por que essa insistência covarde, que atravessa as décadas, de achar que é do outro a culpa por formalizar o fim de algo que não pode mais existir?

O que acho mais problemático nessa visão é o fator do qual ela é sintomática: a crença de que a paixão e o amor moram em um campo que deve permanecer sob o domínio pleno da razão, levados a rédeas curtas e que devem obedecer a uma série de critérios previamente acordados e sistematizados. Não se espera que o amor seja verdadeiro enquanto dure; espera-se que esse amor atenda à premissa cronológica de que vai durar enquanto houver amor de uma das partes, sob a pena de se qualificar o outro como infrator, caso rompa o pacto.

É muito duro de ouvir (e não há amante que não sofra), mas um amor acaba, sim. E a culpa não é de ninguém - e de todo mundo.