segunda-feira, 27 de julho de 2009

O cisne que se deveria ser.


Ugly Duckling, de Vilhelm Pedersen
(Porque hoje acordei leviana.)

Sempre gostei da fábula do Patinho Feio. Não só pela moral uggly betty da coisa - um suposto patinho desengonçado se descobrindo a ave mais elegante de todas, a despeito dos agouros da rapaziada -, mas pela ideia de que é preciso descobrir e enfrentar o que se deve ser.

Fato é que é muito difícil descobrir quem se é de verdade quando somos submetidos a uma série de moldes e mantras diários que têm a função de servir como manual básico sobre a forma ideal de ser - para satisfazer a sociedade, as projeções familiares, o bem-estar e a harmonia coletivos e, acima de tudo, para ser devidamente aceito. Em geral, a tendência natural e esperada é a de que cada um cresça conforme as regras e padrões estabelecidos pelo círculo ao seu redor, sob a pena irrevogável, na maioria das vezes, de ser rejeitado. E é essa questão moral que faz com que o processo de descoberta seja retardado ou, em muitos casos, relegado ao status de desejo eternamente reprimido.

Por conta de tudo o que se aprende, há uma grande dificuldade, em geral, em lidar com decisões. Há o receio de não agir conforme o esperado. Medo de não atender às expectativas, de virar canalha, de decepcionar a família, de magoar os amigos e as pessoas de quem gostamos. Ensina-se a achar que a felicidade está em concretizar sonhos que não são nossos, o que faz com que nossa necessidade de execução (ao gosto dos outros) revele-se um processo tão automatizado quanto as ações da personagem de Chaplin em Tempos Modernos.

Há, primeiro, a descoberta com os olhos do outro, e, só muito depois, há a descoberta com os próprios olhos. Nesse processo, o problema é descobrir aquilo que é preciso ser de verdade, a condição sina qua non de cada um para ser feliz, a despeito de tudo aquilo que foi ensinado e orquestrado; a despeito de todo o conceito de felicidade construído por terceiros que sempre esperarão ter suas expectativas atendidas. Descobrir o cisne que se é, intransferível e exclusivamente, e não hesitar em sê-lo.