quarta-feira, 1 de julho de 2009

Tenho (se é que tenho), logo existo.

Um dos destaques econômicos dos noticiários nos últimos dias é o recorde de vendas de automóveis no mês de junho. Baseando-se nos licenciamentos, é possível dizer que houve um aumento nas vendas de aproximadamente 15% (segundo dados da Folha) com relação ao mesmo período no ano passado. Esse espetáculo do crescimento automotivo deve-se, em boa parte, à redução de IPI, benefício que foi prorrogado até setembro (mas que terá aumento gradual a partir de outubro) e mostrou-se uma grande estratégia para o incentivo de consumo em tempos de crise. No caso dos automóveis, mostrou-se uma iniciativa de longo alcance: reduz-se o IPI, aumenta-se a venda de automóveis e, por consequência, a de combustível, de acessórios e a arrecadação de impostos e tributações (IPVA, multas, licenciamento), dentre outros. Nesse sentido, ponto para o governo, a economia e o consumidor, correto? Não necessariamente. Só no início do ano, foi constatado o significativo aumento de veículos que vão à leilão após apreensão das financiadoras por inadimplência de 20% a 30% com relação ao volume observado até setembro de 2008. Atualmente, cerca de 200 veículos são leiloados por dia. Logo, se as financeiras estão apreendendo produtos vendidos, mas que não foram pagos, isso indica que o consumo não está sendo feito de forma consciente. Aumentou-se o consumo, devido às melhores e mais amplas condições de financiamento (ainda assim com um sistema de juros cruel, é válido lembrar), mas isso não significa necessariamente que tenha aumentado o poder de compra do cidadão.

E isso me lembra a minha vizinha. Aquela que olha com piedade para o meu Ka 98 (comprado em poucas prestações e quitado antes do prazo) e louva o voluptuoso veículo 0km comprado pela filha em prestações a perder de vista. Esse olhar dela é bastante revelador: trava uma relação de status baseada em aquisição. Tenho, logo existo (ainda que "ter" seja apenas um status flutuante e provisório, como ocorre no caso dos veículos apreendidos). Dentro dessa lógica ostentatória, nada melhor do que um carro zero para realizar essa inclusão financeiro-existencial às avessas, pois pode ser mais facilmente visto do que uma planilha de gastos domésticos proporcional à renda e o mais isenta possível de juros de operadoras e financeiras. É a mesma lógica que tem levado mais pessoas ao cirurgião plástico do que ao endocrinologista: preciso, antes, ter a aparência saudável, e depois, se der, ser saudável.

Enquanto isso, o bradado acesso econômico das minorias que se afogam em carnês com um largo sorriso no rosto ilustra uma saúde econômica que, se analisada por dentro, tem grande potencial cancerígeno.