terça-feira, 14 de julho de 2009

Uma verdade inconveniente.

Até uns 10 anos atrás, eu tinha o péssimo hábito de dar pitaco sobre questões indevidas, mesmo antes de ser consultada:

-Jura que você vai sair assim?
-Assim como?
-Com essa blusa aí?
-Tá estranha?
-Ô.

-Ah, vamos arrumar esse texto, vai.
-Ficou ruim?
-Você sabe que faz muito melhor que isso.

Passada essa fase, aprendi a só dar palpite quando consultada:

-Ai, tô atrasada! Esta blusa ficou boa?
-Não.
-hahahaha
-Tô falando sério.
-Sério?
-Sério.

-Gosto tanto do Pedro. Ele não é legal?
-Não.
-Ah, fala a verdade, vai.
-Tô falando.

-Ai, dá uma lida neste trabalho aqui. Ficou bom?
-Não.
-Não mesmo?
-Não, tá sem sentido nenhum.

A questão é que eu sempre achei que o ideal fosse ser extremamente sincera com as pessoas queridas. Não acho justo esse negócio de ver as pessoas de quem a gente gosta - e que têm talento e merecem coisa melhor na vida - passando vexame por aí porque você não tomou partido e a deixou afundar. Tem coisas que não podem passar batido: saber que alguém sacaneia um amigo - ou que potencialmente vai sacanear; ver alguém talentoso se dar mal na oportunidade pela qual sempre esperou; ver uma amiga linda usando umas coisas estranhas pra impressionar alguém, quando ela impressiona qualquer um sendo simplesmente o que é. O mesmo sempre valeu com relação a mim: quando pergunto, quero ouvir a verdade. Mas acontece que, com o tempo, você entende que ninguém quer uma bigorna inconveniente que a estimule a fazer algo diferente do que tem em mente; as pessoas apenas querem apoio. Perguntar é uma mera questão de manipular o discurso fático a seu favor.

Daí, hoje em dia tento ter o maior bom senso do mundo antes de responder e partir pra duas possibilidades quando minha opinião é negativa: deixar uma ideia vaga no ar ou mentir com o maior sorriso do mundo e me safar de circunstâncias comprovadoras:

-Escrevi este texto aqui. O que você acha?
-Promissor.
-"Promissor"?
-É.

-Que que você achou da Ana?
-Uma fofa.
-Legal. Almoça com a gente amanhã?
-Amanhã não rola.
-Ah, sério?
-Sério.

No fim das contas, a estratégia funciona. As pessoas ficam felizes, eu não me estresso. Mas eu continuo chamando de amigo aqueles que, reciprocamente, só trabalham com a verdade.