terça-feira, 25 de agosto de 2009

A verdade de uma esquina qualquer.

Talvez visse tudo distorcido não por culpa dos indicadores no velocímetro; a culpa, se havia, era de seus olhos ruins. A verdade habitava abrigos tão repugnantes que dificilmente se proporia a procurá-la. Gostava da limpeza asséptica das grandes mentiras, da verborragia blindada das causas furadas, mas limpas. Ela sabia - sempre soube - que a verdade era aquele pote de iogurte arremessado pela velha gorda e enrugada sentada à janela do ônibus: a verdade, infalivelmente, é uma propriedade fulgaz e indesejada. O banho, tomado inúmeras vezes ao longo do dia, era incapaz de limpar algo que ela não sabia o quê. Debaixo dos pés, talvez. Ali teria ficado algo. Nos dentes mal-escovados pela preguiça do fio dental; na língua, de fim nauseantemente inatingível.
O coração doía às vezes, e precisava de uma alternativa que desse conta de aplacar a dor. A dor fina, como a chuva rala depois do expediente. O resfriado como reflexo da exposição. A dor que sentia, suja de todas as verdades que guardava no seu peito combalido. Um dia talvez morresse de dor - pensava, tão pateticamente trágica. Pensava no velório, e em quem poderia estar presente. Quantas pessoas limpas e de figurino impecável compareceriam. Quantos se prestariam a borrar a maquiagem com lágrimas pretas; quantos sujariam os pés cemitério adentro. Quantas mentiras acenariam, e quantas verdades seriam eternas.

Mas, por ora, a eternidade são só as fotos pregadas na parede; a verdade, as mãos entrelaçadas em uma esquina qualquer - e tudo o que nunca foi dito.