quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Não quero uma casa no campo.

(Ou "faça o que eu digo e, por ora, não faça o que eu faço")

O primeiro telefonema do dia foi da corretora de seguros, perguntando com a maior intimidade, simpatia e empolgação de que forma eu preferia renovar o seguro do carro. "Não prefiro", eu disse, mas acabei renovando. A contragosto, diga-se de passagem, porque acho um dos maiores desaforos do universo ter de pagar seguro do que quer que seja.

No caso do carro, mal terminarei de pagar as parcelas de renovação do seguro e já terei de pagar IPVA. E aí eu poderia reclamar aqui do sistema de segurança pública, das questões sociais nas metrópoles do país, da insanidade e incoerência dos impostos cobrados (IPVA serve pra que mesmo?), do sistema de transportes frágil, caótico e centralizado de S. Paulo e coisas do gênero, mas, em vez disso, quero me centrar em outro ponto. (Porque hoje acordei cheia de ideias sustentáveis, ecológicas e fraternas.)

O fato é que boa parte das pessoas compra carro porque essa é uma forma de adquirir um bem durável (além, claro, de viabilizar o transporte para uns e de servir como fonte de ostentação para outros). Enfim, em geral, o carro é visto como uma propriedade cujo valor pode ser revertido em cifras em momento de necessidade. Já ouvi muita gente com esse discurso, mas fica a dica: carro não é investimento; é gasto. Um gasto eterno, e uma farsa no quesito bem durável, já que perde anualmente seu valor venal, e nem por isso deixa de ser uma fonte de arrecadação do Estado. Ou seja: é um bem cuja única perspectiva é a da desvalorização, mas que não cessa de demandar gastos (impostos, seguro, pedágios, combustível, reparos etc.). Portanto, se você é jovem, brasileiro e já se alistou no exército, considere a hipótese de jamais querer ter um carro.

Se a ideia for ter um bem, compre uma casa ou um terreno, que pelo menos não correm o risco de estar num lugar agora e sumir no instante seguinte. Pondere que ninguém vai sair por aí carregando sua casa nas costas, nem seu terreno. Se o problema for locomoção, cogite morar perto do seu local de trabalho - você ganha em descanso e qualidade de vida. Essa dica é válida principalmente para quem mora de aluguel e, portanto, tem maior facilidade em mudar de residência.

Enfim, consultoria universal barata à parte, é pensando nisso tudo que não vejo a hora de achar minha casinha nova em um lugar mais acessível - lembrando que, por ora, moro com saguis no meio da Mata Atlântica, fato que teria tudo pra ser sensacional, desde que eu não precisasse me deslocar por SP. Assim, poderei vender o carro, comprar uma bicicleta e pedalar loucamente por aí ao melhor estilo David Byrne, com uma vida mais prática.

Enquanto isso, o que me martela a cabeça é uma entrevista que o Kassab deu à Rádio Eldorado certa vez, dizendo que um dos problemas em expandir a rede de transportes público era o fato de que isso é obra para vários mandatos, e nenhum político se propõe a começar obra para um outro terminar e levar o mérito. Maravilha, né? Perspectiva de melhora sustentável zero.

Por isso, tento trabalhar apenas em casa e me locomover só de madrugada e aos finais de semana pra tentar fugir um pouco do trânsito insano - embora nem nesses períodos eu fique isenta disso. Porque (vejam a ironia!) não morar na região central, em S. Paulo, não é saudável, por mais esquilos e bem-te-vis que se tenha à porta de casa.