quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Bonecas russas.


É cada vez mais comum, ao contrário do que o processo de evolução faz supor, relatos de pessoas que sofreram pequenos e grandes preconceitos por ter um determinado estilo de vida ou pertencer a uma etnia específica. Daí pensei nos preconceitos assumidos ou velados que já sofri, por ser mulher, e isso me levou à conclusão de que a única grande verdade do universo é que o padrão de ser humano perfeito, século após século, ainda é o velho WASP. Não a mulher, não a criança, não a idosa; o homem. Os negros, os orientais, os muçulmanos, os judeus, as mulheres, os imigrantes, os latinos e os homossexuais são alvos móveis em escala de rodízio eterno conforme a necessidade da mídia no quesito preconceito. E isso é chocante, é horrível, mas o pior mesmo é que, dentro desse campo de concentração gigantesco formado por diferentes perfis, é comum haver outros tantos pontos de atrito menores: há negros homofóbicos, mulheres racistas, imigrantes xenofóbicos, gays machistas, orientais antissemitas e assim por diante, fazendo com que o preconceito assuma o status de uma gigantesca boneca russa. Para incendiar essa questão, vêm grandes congressistas e estudiosos falar sobre o preconceito, de forma a absolver determinado povo e a condenar outros, como se a vida em sociedade fosse pura matemática. Como se o outro fosse sempre menos merecedor de dignidade, por ser diferente. O outro, por sua vez, precisa ser não bom, mas excepcional, pra ter a sua vez num mundo em que ele próprio se assume como ser diferente. É como uma mulher que tem, antes, que provar incessantemente inteligência para ser vaidosa sem culpa; como um negro que não pode errar sem ouvir um "tinha-de-ser-preto"; como um gay que não pode ficar feliz sem ser "a-bicha-louca". Em se tratando de preconceito, errar uma vez é confirmar a tese do opressor de que você faz por onde ser menor, menos digno. E é por isso que eu acredito que não se deve ficar indiferente ao ver ou ser vítima de preconceito, mas também não se deve gritar. É preciso ser apenas você, sem culpa por ser você, porque o que fomenta o preconceito é o respaldo no comportamento da própria vítima que, não raro, tenta atingir patamares além do possível para se fazer respeitar. E, lutando para ser além do que se pode ser, não há felicidade que baste.