terça-feira, 24 de novembro de 2009

Dermatologistas, essa adorável espécie!

Freud, pagando de gatinho entediado.

Enquanto outros especialistas não me despertam a mínima vontade de estreitar laços (dos dentistas, por exemplo, com seus maçaricos diabólicos, só quero distância!), é comum eu ter a sensação de que dermatologistas podem ser grandes amigos. Percebam como só esse profissional é capaz de compreender angústias que, aos olhos de outros, podem soar como futilidade. Se eu digo que estou me sentindo um dálmata por conta das sardas excessivas, esse profissional encantador vai passar a mão em minha cabeça e dizer que eu posso ascender à condição de ser humano com uma fórmula de manipulação milagrosa. Não é uma amiga leiga dizendo que meu problema tem solução; é a ciência dizendo. E também não é uma esteticista com ar de quem quer surrupiar a minha grana com seus tratamentos egípcios, gregos, japoneses, franceses ou italianos; é um profissional, um estudioso, um acadêmico, um cientista. É Stephen Hawking dizendo que não sou fútil ao me sentir mal por ter a pele ruim. Dizendo que entende a minha dor e que tem a cura para ela. Dizendo que a ciência se preocupa comigo e que preparou por anos a fio no seio acadêmico um profissional sob medida para solucionar minhas angústias.

É por isso que sempre após eu despejar 517 dúvidas sobre sardas, manchas, oleosidade e alergias - para as quais sempre há uma solução prática e empolgantemente encantadora - tenho vontade de dividir todos os demais problemas da vida. Porque acredito que, para alguém que entende tão bem dos meus poros, entender de questões cotidianas deve ser fichinha. Certamente, Freud ou Skinner não responderiam aos meus questionamentos com tanta precisão e segurança quanto os sagazes dermatologistas. Aliás, eu me pergunto por que não há na tevê uma série dedicada a esse profissional. Tenho até uma sugestão de episódio: a mocinha está com uma espinha gigantesca na ponta do nariz, chorando copiosamente debaixo da escada por não poder ir a uma festa com a apaixonante figura insossa de cabelo escorrido que a convidou. Nisso, surge uma dermatologista fazendo as vezes de fada madrinha e, com um toque de varinha na entidade pustulenta, salva a noite, deixando o rosto da manceba aveludado e radiante. E, uau, que noite!

Claro que saber que um tubo minúsculo de creme custa 90 reais e perceber que um laboratório específico predomina na receita põe seriamente à prova essa relação de entrega e cumplicidade, mas, pormenores à parte, que adorável espécie a dos dermatologistas! Com eles, você sempre vai poder ser alguém melhor - ainda que prefira assinar uma revista a comprar a medicação receitada.