domingo, 6 de dezembro de 2009

Heroína de um dia só.


A vida evolui, mas o fato é que neguinho sempre acha que as coisas estão piores do que antigamente porque o ser humano tende a ser tão insatisfeito quanto modelo/atriz/dançarina com relação à quantidade de silicone que tem no peito e à de botox que tem na cara.

Então eu reclamo, porque sempre curti ler uma rapaziada que reclama pra diabo e meus tendenciosos neurônios levaram a coisa toda a sério, mas o fato é que devo estar na melhor fase da vida - só vou poder afirmar isso com mais precisão daqui a alguns anos, quando tudo for mais lembrança que presente, como é habitual. Embora nunca antes na história deste país eu tenha ficado tão sem grana quanto agora, as coisas estão mais à minha maneira. Só o fato de conseguir dizer não ao que, de fato, devo dizer não, me dá a sensação, talvez falsa, de que eu posso tudo. Ou de que, ao menos, não preciso me sentir culpada por ser simplesmente eu, em meu melhor e em meu pior - e não há dinheiro no mundo que pague isso.

Não caibo mais em meu vestido de festa favorito e o motor do carro anda de sacanagem comigo, mas é nesses momentos em que penso em Bowie, dizendo que podemos ser heróis nem que seja só por um dia. E daí me dou ao luxo de acreditar que nada é problema, porque eu sempre posso ser uma rainha em meus pensamentos: basta eu tocar o terror na Peta e matar meu leão diário. E soa muito autoajuda chata, barata e de mais baixa qualidade que móvel das Casas Bahia, eu sei, mas ter a sensação de que o mundo é meu mesmo quando um carro joga a água da poça na minha cara é o que me move.

Fato é que agora estou me sentindo muito bem. Lascada, endividada, gorda, com uma espinha maior que o universo no queixo, mas muito bem. Finalmente lil' fish e eu achamos um apartamento como queríamos, não onde queríamos, mas num bairro simpático de onde, da varanda, se vê uma nuvem de casinhas coloridas e, ao fundo, todos os grandes prédios da cidade. É bacana a ideia de ter uma vida nova pra começar, dá um pouco a sensação de nascer de novo e poder fazer tudo melhor. Ou de errar como sempre, mas de uma forma nova. E é essa a sensação que tenho a cada caixa que encho de livros, de cartinhas de amigos, de roupas: de que vou poder dar muitas bolas dentro ou tropeçar loucamente em meus cadarços, como sempre, mas de uma maneira diferente.

Então, mais uma vez, vou acreditar que sou apenas uma eterna heroína de um dia só. Cheia de contas a pagar, com as unhas descascadas e uma barriguinha safada e petulante me afrontando durante o banho, mas uma heroína que pode tudo. Ao menos em meus sonhos e em cada vez que acredito que a vida pode e deve ser como eu quero.