terça-feira, 26 de janeiro de 2010

If you want to make God laugh, tell him about your plans.



Lamúrias para chorar no cantinho volume 38759.

Digamos que eu tenha uma certa tendência a ver as coisas de uma forma negativa. Tento bancar o Cândido com os problemas alheios, brincar de A Vida é Bela com a rapaziada, mas em geral enxergo minha vida como uma versão estendida do apocalipse. E, quando tento ser felizona e fingir que problema é coisa de gente que não tem mais o que fazer, surge sempre algo pra me lembrar de que o riso sempre desvia a gente da nauseante verdade - sim, Jorge de Burgos tinha razão, Umberto.

O resumo da coisa toda é que simplesmente cansei de fazer planos. Tem coisas que acontecem na minha vida infinitamente melhores do que tantas outras que esboço, mas o fato é que raramente tenho o prazer de ver algo planejado acontecer, e essa sensação de impotência ad infinitum é bem difícil de tolerar. Eu queria ainda ser adolescente pra dizer que a culpa disso tudo é do sistema e, assim, ter um único alvo a quem me voltar contra, mas a questão é mais delicada. Tenho a impressão de que tudo conspira contra mim e, quando nada conspira, entram a minha displicência congênita em relação ao que, de fato, é importante pra mim e minha falta de autoestima traiçoeira em ação. "Traiçoeira", porque, em condições normais de pressão e temperatura, compro a ideia bonita de que tenho uma autoestima campeã nos 100 m rasos pra chamar de minha, mas basta, sei lá, eu quebrar um copo pra rolar todo um questionamento sobre a minha capacidade de agir com a decência mínima que a quantidade excessiva de cabelos brancos em minha cabeça exige - lembrando que, por conta de um único fio, Willy Wonka entrou numa crise bem mais alarmante.

Talvez seja tudo culpa desta faixa etária andrógina em que estou: não sou mais criança nem adolescente, mas ainda não sou balzaquiana (falta pouco!) nem idosa. Tento apenas encarar a triste realidade de que tudo o que eu queria ser quando tivesse vinte e poucos anos não se concretizou, e tento me conformar com a ideia diária de que o tempo virou meu inimigo número 1. Não posso mais fazer besteira achando que ainda tenho todo o tempo do mundo pra fazer a coisa certa; também não posso agir com absoluta moderação, porque cada mínima oportunidade passou a assumir o status emergencial de última chance. Pra completar esse belo cenário, também não posso fazer planos, porque já saquei que eles não se concretizam a meu bel-prazer, e, sim, conforme algum preceito cósmico fanfarrão e desconhecido. Então, se eu não posso ser irresponsável, mas as responsabilidades que assumo não são suficientes pra me dar prazer, o que é que resta?