quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Serviço de "branco".

Mais uma da eterna série "involução da espécie".

Da sacada, há pouco, ouvi um "ah, faz de novo, isso aí ficou serviço de preto". Não sei se veio da manutenção do térreo, da oficina mecânica da rua da frente, do apartamento de alguém. O fato é que sempre me causa espanto saber que existem racistas no Brasil - e aos montes. E isso me incomoda, em especial, por conta de três cenários: 1. o único povo que preserva grupos não miscigenados no Brasil, que possui indivíduos "puros" é o indígena (considerando-se os poucos índios que ainda vivem em reservas e que se reproduzem apenas entre si), o que faz com que os índios sejam os únicos nestas terras de sabiás que seguiriam alguma espécie de lógica caso defendessem uma "raça pura"; 2. o Brasil é sinônimo de mistura racial, então por que raios há discriminação contra a miscigenação com africanos e todo um encantamento, por exemplo, pela miscigenação com europeus, quando uma significativa parcela da rapaziada europeia que migrou para cá fugiu de perseguição étnica em seus países, de guerras, da fome e de tantas outras catástrofes? Qual a diferença em relação aos negros no quesito vida bandida? O fato de os homens "brancos" terem sido os pioneiros em tocar o terror em outros povos faz com que pareçam mais nobres?; 3. brasileiro branco, em absoluta maioria, é branco ao acaso. Minha avó materna, por exemplo, era negra, minha tataravó, índia, e, por acaso, nasci branca, assim como minhas irmãs. Mas poderíamos ser negras. Seríamos vistas de forma diferente se isso tivesse ocorrido? Provavelmente sim, o que mostraria que não é a pele o que dá identidade racial a alguém, mas sim a origem a que a cor dela remete.

Essa questão me lembra um filme chamado Tolerância Zero, em que um judeu que tem vergonha de suas raízes vira um fervoroso antissemita e ganha prestígio entre os neonazistas, que não sabem de sua real origem, até o dia em que ele entra em uma insana e profunda crise de identidade. O que aconteceria com 97% dos racistas brasileiros caso fizessem sua árvore genealógica minuciosamente.

Na verdade, em termos de Brasil, funciona assim: o que remete à África remete à pobreza e dominação; o que remete à Europa, remete à corte, ao luxo, a conquistas. E a rapaziada quer mais é fingir que a vida é uma novela do Manoel Carlos versão estendida - ainda que, nessa trama, todos aqui, sem exceção, sejam a eterna doméstica.