segunda-feira, 22 de março de 2010

Amor, estranho amor.

O mau humor me abraçou numa dessas tardes de calor surrealmente infernal e não nos desgrudamos desde então, mas já estou providenciando a papelada toda para o litigioso. Cansei deste amor, estranho amor. Enquanto isso, tenho escrito com menos frequência do que o habitual e evitado ver as pessoas queridas, para não correr o risco de despachar ninguém para a antirrábica.

Estudos lúdico-ontológicos avançados indicam que não há motivos para esse pessimismo todo no qual ando imersa e, além disso, como disse um amigo, se for pra ficar deprimida por fazer 29 anos é melhor desistir de tudo logo agora, porque a expectativa de vida humana anda nas alturas etc. etc. - sem falar no fator Pitanguy.

Pensando bastante a respeito, creio que o motivo que mais alimenta essa sensação é a minha falta de foco na vida - gosto tanto de tanta coisa que fica difícil me dedicar a elas o suficiente para me sentir plenamente realizada em alguma. Além das paixões elementares (cinema, teatro, literatura e música) e dos projetos inacabados (livros, roteiros, peças), vou acrescentando ano a ano novos interesses, o que faz com que a sensação de impotência vá aumentando, já que o universo de possibilidades se expande sem que role por aqui um padrão não-existe-no-Brasil-festa-mais-cara-que-a-nossa para fomentar (com tempo + dinheiro) minhas paixões. Ao contrário, vivo em esquema boliviano e, como sabemos, isso é sinônimo de pouco tempo livre (e, no caso de tradutores e afins, de pouco dinheiro também). Então, envelhecer está sendo um problema para mim porque inviabiliza a agradável ficção de que até o fim da minha vida vou experimentar, aprender e desfrutar de tudo o que me atrai. As possibilidades almejadas aumentam, porque aumenta a vivência e o vislumbre, mas o calendário indica que o tempo não será mais infinito e próspero como prometia ser aos 15 anos.