segunda-feira, 15 de março de 2010

A arte da ilusão.

Recomeçar, recomeçar, recomeçar. Mil vezes recomeçar. Recomeçar de novo. Recomeçar sempre. Recomeçar, recomeçar, recomeçar.


Há algumas tantas personagens de cinema e da literatura com que me identifico, mas o Carlos, de São Paulo S/A, está sem dúvida no topo da lista, com sua insanidade em tomar parte de tudo e pertencer à engrenagem (quando sua natureza inspira claramente a fugir) e uma impulsão despropositada, mas inexplicavelmente vital, em correr na esteira dos acontecimentos, como se só assim fosse possível fazer parte da geografia da cidade. Por fim, o isolamento confuso e abrupto ao perceber que a velocidade do mundo não é a mesma das pernas e dos sonhos, e que é uma tarefa sobre-humana lidar com a ordem supostamente natural das coisas. Daí a fuga, a negação e o abandono, seguidos pelo eterno retorno – a ideia de recomeço, ainda que involuntário, ao ciclo bandido que se instaura invisivelmente no cotidiano na cidade.


Assim, meu ritmo diário é como o da entrada no vagão de metrô pela manhã: à velocidade da pressa alheia. Ou de um carro em trânsito, à velocidade das buzinas, dos semáforos e dos ponteiros do relógio. Tudo é a velocidade do outro, até o momento em que meu recomeço é marcado pelos meus parâmetros – que não se sustentam no mundo prático.


Essa é minha rotina, meu vício involuntário inexplicavelmente incurável e minha negação impotente. Essa sou eu, num mundo em que a logística dos gestos não me representa. A única salvação, a cada dia, é a possibilidade de recomeçar sempre – e a eterna ilusão de que tudo será ao meu modo.