quarta-feira, 3 de março de 2010

Coisa de água-viva.

De tempos em tempos, alguma válvula de escape é usada para prover alguma dignidade a quem não tem nenhuma. É o caso dessa papagaiada sonolenta em torno da cerveja para a qual a tal socialite insossa faz campanha, em um incrível caso de polêmica em plena terra do rebolado (export only) - porque todo mundo tem muita moral e muito bom costume quando o produto de referência é externo. A história tupiniquim mostra que a indecência, eternamente, está nos outros. Provavelmente, o uso de autocrítica geraria questionamentos sobre a necessidade de abertura de um novo DOPS - o que justificaria o não uso dessa incrível ferramenta perceptiva por parte de muitos. Enquanto isso, esquecem-se de Jardim Pantanal e adjacências e os eternos escândalos envolvendo peças íntimas no planalto: o foco na tevê são os "saqueadores" latinos - quando o (enorme) problema do Chile é a falta de assistência visível do governo em relação às pessoas que perderam tudo em um terremoto assombroso. Ninguém sabe de que forma será feita essa assistência, mas sabe-se que as forças militares estão a poucos metros de distância para prover, via pirotecnia, regras de etiqueta a qualquer um que saiba que chegou a hora do filho comer. Como sempre, ninguém sabe lidar com emergências sociais - mas sempre sabem qual política econômica e financeira aplicar para recuperar dividendos, e sempre sabem que o contribuinte tem um poder de superação infindável. Não reclamamos, e a ilusão se justifica.

É nauseante a capacidade da sociedade civil em geral de se mobilizar com tanta fúria em torno de um vestido curto e feio em uma universidade tosca (por que não se preocupar com o desempenho dessa pseudouniversidade no provão?), de uma gringa insignificante em mais uma propaganda ruim de cerveja (por que não se preocupar com o aumento do número de casos de dependência alcoólica entre jovens?) e em torno do lado errado e marqueteiro de uma questão social séria e emergencial (por que não investir em políticas prévias de assistência em casos de catástrofes naturais, já que essas são cada vez mais constantes?). O fato é que a tendência atual é se apegar a questões tão fulgazes quanto a tolerância humana para assuntos que não lhe atingem - cada um com seu inferno.

Em resumo, a onda é observar a ponta do iceberg. Profundidade é coisa de água-viva.