segunda-feira, 26 de abril de 2010

Música para ninar dinossauros.

Foto: Luis Felipe Ogro

Ontem fui ao Espaço Parlapatões assistir à Música para ninar dinossauros, primeira encenação da Cemitério de Automóveis após a recuperação de Mário Bortolotto (na qual ele também atua, com uma tipoia no braço esquerdo). Algo inesperado, já que minha relação com o dramaturgo era esta: um dia fui ver Herói Devolvido, achei tudo muito chato, tedioso, pretensioso e de mau gosto, saí antes do final da apresentação e, desde então, nunca mais vi nada que Bortolotto dirigisse, escrevesse ou em que atuasse. Mas daí surge essa peça com nome encantador e com Lourenço Mutarelli, que é a figura mais sensacional e genial de todos os tempos, no elenco. Como resistir?

A trama gira em torno de três amigos quarentões – beirando os 50 e, portanto, nascidos nos anos 1960 –, que se definem como uma geração que “sempre chegou atrasada”: eram moleques demais para entender a ditadura e velhos demais para pintar a cara e sair às ruas nos anos Collor.

A principal característica dos amigos – Igor (Bortolotto), Zed (Mutarelli) e Treta (Paulo de Tharso) – é estar à margem: sem família e mulher, buscam companhia de prostitutas para não ter de se submeter ao julgamento ou às imposições de ninguém. Não há grandes pretensões, buscas ou ambições entre os três; eles querem apenas levar a vida da maneira mais simples possível, com suas bebidas, seus cigarros e calmantes, na companhia uns dos outros, sem embarcar na paranoia coletiva de ter que se destacar na multidão. Aí está o lado jurássico dos personagens: resistir sendo simplesmente o que se pode ser.

Intercalando cenas do presente com algumas do passado – que levam o espectador a perceber que pouca coisa mudou na vida dos protagonistas –, sem grandes desenvolvimentos textuais e com cenário fixo, a beleza da peça está justamente em sua simplicidade e nas atuações totalmente despretensiosas, naturais - o que se deve, grande parte, ao fato de os protagonistas serem grandes amigos e cúmplices também fora dos palcos.

Além da dramaturgia sob medida para as personagens e seus intérpretes e da ótima trilha sonora, a peça tem também a cena mais legal de todos os tempos: Mutarelli fazendo uma dancinha fabulosa pra "Jump", de Van Halen – que quase lhe rendeu uma virilha estropiada. Vale destacar também as interpretações cuidadas, sem caricaturas ou trejeitos apáticos, das atrizes que interpretam as prostitutas.

Por fim, uma frase de um dos belos diálogos finais justifica o ritmo da peça a quem possa acusar o dramaturgo de negligência com o texto: envelhecer é perceber que tanto faz.

Bortolotto, te dedico.