terça-feira, 27 de abril de 2010

Trabalho mental abaixo de zero.

Até um mês atrás, o apartamento aqui era quase uma reprodução fiel de Grey Gardens, com direito a lil’ fish e eu nos revezando no papel de Little e Big Edie. O terror, o terror. Mas esses grotescos momentos de decadência estética e sanitária acabaram: agora, uma mocinha toda cheia de ternura vem às sextas-feiras e torna este lar o lugar mais adorável da galáxia.

Acho admirável a capacidade de organização da moça: de repente, é como se o apartamento tivesse dobrado de tamanho, e como se tudo estivesse sempre à mão. As roupas são cuidadosamente passadas e colocadas nos cabideiros; as meias separadas por cores; sempre há uma combinação bonita na cama (nem eu sabia que tinha mais de um jogo de lençol) e os copos e pratos cabem simultaneamente no armário; o azulejo da cozinha brilha tanto que rola até de fazer maquiagem olhando pro chão, e por aí vai. Enfim, ternura define meu sentimento por essa moça.

Fico encantada com a habilidade de se dedicar com tanto cuidado a organizar a vida de outra pessoa, de fazer com tanto carinho algo que poderia ser feito numa versão bem mais básica, e é por isso que tenho o mais completo e absoluto desprezo pela rapaziada que trata determinados (bons) profissionais como “empregadinhos”.

Já trabalhei com uma criatura que disse que todo porteiro é analfabeto (quando a brilhante bacharel em questão dizia maravilhas da língua como “fazem dois dias”), semanas atrás tive de almoçar com um elemento que não tira a bandeja de mesa da praça de alimentação pra “dar emprego” (quando ele próprio só tem emprego por ser queridinho da pessoa certa) e hoje tive de ouvir que "100 reais por mês é de bom tamanho pra uma doméstica porque fazer faxina envolve trabalho mental zero".

Organizar com carinho e eficiência a vida de outra pessoa exige trabalho mental, sim, e se eu fosse essa turminha espirituosa de RH faria fortuna vendendo livro sobre "inteligência operacional" (fica aí a dica de expressão cretina a ser cunhada por perdedores). Mas a verdadeira questão aqui é: quantos neurônios um babaca gasta pra estabelecer babaquices? Trabalho mental abaixo de zero.