segunda-feira, 17 de maio de 2010

Amarrar cadarço também é revolução.


No bairro onde eu morava, duas mulheres insanas, mais de 20 anos atrás, fizeram um motorista de refém e disseram que só o liberariam se uma nova linha de ônibus fosse inaugurada para levar a minúscula população local até o centro da cidade. A reivindicação era antiga, mas ninguém levava a sério porque benfeitoria no brejo não dá ibope, como sabemos. No entanto, a atitude da mulherada funcionou e lá está a linha, atendendo, hoje em dia, a um fluxo gigantesco de usuários. Essa não foi uma ação de alcance mundial, mas foi extremamente importante para melhorar a qualidade de vida da rapaziada de uma região específica.

Eu me lembro dessa história toda vez que vejo a molecada revolucionária cheirando a nesquik que sai aos berros, de spray em punho pelas ruas e campus, querendo mudar o mundo e “o sistema” – esse velho safado e canalha –, mas que nunca arrumou a própria cama ou regou as plantas do quintal. Essa molecadinha brasileira, bonita e sapeca que acha uma violência surreal ter de ir à farmácia comprar remédio para a mãe acamada, mas que se sente capaz de alterar a rotação terrestre. Aprender a amarrar os cadarços sozinho também é revolução, cambada.