terça-feira, 25 de maio de 2010

Antropóloga em Marte.


Nos relatos registrados pelo neurologista britânico Oliver Sacks em Um antropólogo em Marte (Cia. das Letras, 360 páginas) em capítulo específico, Temple Grandin narra sua dificuldade em compreender as relações sociais. A primeira vez que olhou alguém diretamente nos olhos, por exemplo, foi às vésperas de fazer 30 anos, e sua maneira de compreender conceitos é associando-os a imagens (habilidade comum a autistas), mesmo em casos mais abstratos.

Com plena repulsa ao contato humano, Grandin criou uma máquina da qual recebia abraços com duração e intensidade controlados por ela. Esse foi o único meio que a então jovem autista encontrou para obter o afeto de que precisava na exata medida de sua necessidade, sem se sentir sufocada pelo contato humano.

Suas limitações com relação à vida social não a impediram, no entanto, de se tornar escritora, engenheira, bióloga Ph.D em ciência animal e professora da Universidade do Colorado, o que é explicado por sua capacidade de assimilar com mais facilidade a linguagem técnica que a social. Além disso, Grandin é uma exímia especialista em necessidades dos animais, e se tornou referência em técnicas para manejo do abate de gado – ela propõe que as instalações pecuárias se adaptem aos hábitos animais e proporcionem a sensação de segurança e conforto, utilizando alguns dos princípios aplicados à sua máquina de abraçar - ou máquina de compressão - e valendo-se de sua própria experiência interior.

O que despertou meu interesse por Grandin foi a bonita declaração que dá nome ao livro de Sacks : “A maior parte do tempo eu me sinto como um antropólogo em Marte”. Isso porque o universo de compreensão da bióloga gira em torno de animais, aos quais dedicou sua vida, enquanto as relações humanas pouco lhe dizem respeito.

Apesar da percepção peculiar de Grandin sobre o mundo, a ideia de criar uma máquina de abraçar não deixa de ser bastante universal: representa a busca por uma medida exata na relação com o outro, sem rebarbas, lacunas ou excessos inconvenientes.

O caso é fascinante e serviu de inspiração para o texto A Máquina de Abraçar, do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra, adaptado para o teatro por Malu Galli. Da excelente peça (em cartaz no Sesc Pompeia - SP), cabe aqui dizer que Mariana Lima atua com uma sensibilidade fora do comum.

O tema também foi adaptado pela HBO: o longa Temple Grandin foi lançado em fevereiro nos EUA. A quem se interessar, segue o trailer: