sexta-feira, 28 de maio de 2010

Eu não matei Joana d'Arc.


Presenciei uma discussão acalorada e frágil sobre religião - ou, antes, sobre a concepção futebolística que as pessoas têm dela - da qual não tenho nenhum interesse em comentar, senão por um ponto bastante simplista: em minha visão bastante distanciada e leiga, acho gozado a rapaziada ocidental ser adepta fervorosa de religiões com preceitos supostamente pacifistas e acalentadores e, ao mesmo tempo, ser extremamente intolerante em relação a crenças diferentes. Além disso, é um espetáculo bizarro essa mania compulsiva de nivelar o modus operandi por baixo: somos pedófilos safados, ok, mas vocês são estelionatários; somos trambiqueiros verborrágicos, ok, mas vocês grelharam a rapaziada a rodo na Idade Média. Sem falar nas crenças que se acham mais evoluídas que outras: escolhidos, racionais, vegetarianos neuróticos em busca da redenção da cenourinha dourada etc. As pessoas fazem leituras duvidosas de conceitos metafóricos e abstratos a seu bel-prazer e, a partir desses equívocos em causa própria, criam seitas hypadas, personalizadas ao gosto do cliente: tem religião para dançarinos-em-cristo, para porra-loucas (afinal, desde 2008 a anarquia está oficialmente morta), para ex-dançarinas decadentes. As igrejas mais tradicionais atacam as novas tendências do verão, mas, por detrás das coxias, trocam o frontman das antigas por um rostinho desprotegido, levemente musculoso e bom de gogó. Desde os primórdios, a religião tem sido a forma mais eficaz de arrebanhar intolerantes com pouco talento para formular justificativas para seus pontos de vista segregadores. É possível que haja alguma exceção por aí dentro deste contexto, mas eu desconheço.