quarta-feira, 5 de maio de 2010

Por isso corro demais.


Há quatro meses decidi deixar o carro de lado. Como agora moro mais perto do centro, achei que seria um bom momento para colocar em prática meu projeto bonito de ter uma vida mais saudável, dependendo menos de carro para me locomover e menos exposta à insanidade que se tornou o trânsito paulistano (da última vez que peguei num carro, fiz um malabarismo surreal para escapar de um sujeito que achou que seria uma diversão bastante digna dirigir de ré em plena Castello Branco).

Não sei muito bem como as coisas acontecem nesse quesito em outras cidades, mas aqui em S. Paulo o tráfego é um remake apocalíptico e desabastado de Speed Racer, e também uma representação bastante sintomática do caos urbano em que a cidade se transformou. O que não falta é tema para aprofundar: o inchaço no transporte público disponível, que não atende à demanda e fomenta a ideia de que carro próprio é a solução, sobrecarregando, assim, ainda mais o tráfego; o “status” de se ter um veículo, impulsionado pelo IPI reduzido e pelo aumento de crédito e financiamento (a juros massacrantes), gerando aumento do poder de compra – embora não haja aumento real de rendimentos do comprador; o horário de entrada estático dos funcionários, que faz com que um contingente sobre-humano de pessoas precise se locomover no mesmo horário (até o dia em que o camarada decide comprar seu próprio meio de transporte para não se submeter às axilas alheias em pleno raiar do dia); a falta de ciclovias, acessibilidade e segurança para ciclistas nas ruas (a bicicleta seria uma alternativa incrível para deslocamento em distâncias curtas); e, por fim, o hypado "mercado" de vendas de CNH, responsável pelo verdadeiro exército espartano de barbeiros e sádicos pelas ruas.

O problema parece envolver só o trânsito, mas, na verdade, a insanidade automobilística da rapaziada é resultado de uma questão maior: o trabalho, que é a principal razão de as pessoas se deslocarem durante cinco dos sete dias da semana. Meses atrás, um senhor que me fechou em alta velocidade e acabou com a lateral do meu carro (percebam como tenho sorte no trânsito) argumentou: "Hoje foi um dia muito estressante no trabalho, eu só queria chegar em casa". Desde então, tenho pensado em como as pessoas veem atualmente sua relação com o trabalho, e de que forma isso interfere na dinâmica da cidade e na qualidade de vida. Como diz Bob Black em Groucho-Marxismo (Conrad, 120 páginas), estamos sempre envolvidos com trabalho ou correndo como loucos tentando esquecê-lo.

A relação trabalho x trabalhador precisa ser repensada para reverter o atual cenário caótico. São necessários estímulos fiscais para atração de empresas e criação de polos industriais em locais fora dos grandes centros (desafogando, assim, o tráfego), a criação de horários alternativos e o incentivo à criação de empregos a distância (home office), o que reduziria substancialmente os gastos da empresa e resolveria o problema de deslocamento dos funcionários - e de inchaço no trânsito. Medidas paliativas e megalomaníacas, como é o caso da expansão das Marginais em SP (que custou 1,3 bilhão e prejudicou ainda mais a capacidade de drenagem do solo), apenas adiam atitudes mais consistentes sobre o tema.

O fato é que ações sustentáveis envolvendo mais de um mandato para serem concluídas raramente viram projeto de governo. A triste conclusão é que o que dá voto é obra concluída durante a gestão, então, via de regra, é isso o que interessa aos governantes. Enquanto isso, corremos em círculos.