segunda-feira, 10 de maio de 2010

Viajo porque preciso, volto porque te amo.


Ando com uma preguiça terminal de ir ao cinema. Ultimamente, faço figa nos dedos e torço pela chegada de algum lançamento legal para eu traduzir, só para evitar a comoção pública que se tornou assistir ao que quer que seja fora de casa. Assim, vi Avatar poucas semanas atrás (essa espécie de remake ultramoderno e bem-sucedido de Super Xuxa contra o baixo astral), e ainda não vi Alice nem Tudo pode dar certo. Medo de interagir por osmose com a rapaziada lunática e encantada que curte Tim Burton e com os geniais-sacadores-de-referências-que-riem-como-se-não-houvesse-amanhã fãs de Woody Allen. Gosto de ambos os diretores, é fato, mas tenho pavor a fanatismo, e sou partidária da ideia de que não é a pirataria que vai acabar com as salas de cinema; é esse pessoal alucinado que está sempre propenso a gritar, a se encantar e a rir como louco independentemente de um bom motivo, apenas por conta da grife do filme.


Mas como tudo é esperança no coração do peão sertanejo, sexta-feira quebrei meu protocolo e fui à estreia de Viajo porque preciso, volto porque te amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes), que, desde já, leva o sensacional troféu Luciana Lima de melhor título de filme de todos os tempos. Além da frase ternurinha de para-choque, o longa com cara de documentário une duas paixões minhas: road movies e caminhões. Ah, sim, e música brega também: tem de Lairton dos Teclados a Peninha.


Embora mostre as cidades fadadas à completa extinção por conta da transposição do São Francisco, o foco da história é o vazio, a solidão, e é nesse contexto que o narrador, sempre em off, se insere: ele viaja para esquecer o adiós muchacho que tomou da namorada e, ao longo do caminho, encontra algumas tantas figuras emblemáticas e alentadoras, como a prostituta Patrícia, mãe solteira e sem rumo que procura o conforto de uma vida-lazer (amei o termo!). As imagens desfocadas e coloridas dão um ar nostálgico e lembram muito os monóculos de fotografia de antigamente (estes). Achei um encanto só.

A saga do protagonista pelo sertão tem um pouco da narrativa de Euclides da Cunha em Os Sertões: dura e distanciada no início (e, no caso do escritor, chata de chorar no cantinho), mas que gradativamente vai assumindo um tom sentimental de cumplicidade. Talvez pareça conceitual demais a estética de filmes desse gênero, com personagens estáticas em frente às lentes, mas essa é a forma mais fiel de se retratar o sertanejo - posso afirmar com a convicção de quem já viajou três vezes pelo sertão. É como se as pessoas fossem o fading final de um sorriso, quando a alegria já está, há muito, esgotada, e a enorme beleza do filme está justamente em mostrar que a seca não é só uma condição geográfica isolada, mas também psicológica e universal, como mostra o narrador.



(Notinha: eu adorei, mas fica a dica de que lil' fish dormiu mais de metade do filme.)