segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Valei-me, Kafka!


Eu poderia enumerar a avalanche de sentimentos ruins que o conceito de banco me desperta, mas vou focar na burocracia em causa própria, ilustrando com meu perrengue atual e dando dicas que considero valiosas a todos os correntistas amadores deste país bonito, país faceiro.

Estou há duas semanas tentando abrir uma conta corrente para receber o salário de uma fundação para a qual estou prestando serviços. Como já tenho conta em outra agência, que movimento com mais frequência e que, por esse motivo, achei conveniente contratar um pacote básico de serviços ("cesta básica"), não tenho o mínimo interesse em ter despesas em uma nova agência. Daí, optei por abrir uma conta eletrônica sem pacote de serviços, que é uma modalidade pela qual você não paga nenhum serviço, desde que apenas faça saques/débitos e tire no máximo dois extratos por mês. Acontece que, como é de se imaginar, essa informação é praticamente secreta (descobri porque sou uma eterna cortadora de despesas, portanto estou sempre fuçando essas informações). Nenhum banco divulga essa modalidade de abertura quando um possível correntista entra em sua agência, porque, como sabemos, o grande interesse é empurrar algum serviço pra cima da vítima.

Assim, fui à agência, informei em qual modalidade queria abrir minha conta e ouvi que não havia essa possibilidade. Bati pé com o atendente, bati pé com o gerente e, vendo que não estava obtendo os resultados desejados, liguei para a central e para a ouvidoria do banco e lá me deram razão. Abriram protocolo, deram bronca no gerente e, com o número do protocolo em mãos e com os documentos solicitados, finalmente consegui "dar início" ao processo de abertura da conta (valei-me!), "porque abriram uma exceção especial para mim". Peraí, cara-pálida, "exceção"? Foi também por conta dessa "exceção especial" que me disseram que tentarão abrir minha conta em até "5 dias úteis", quando o fato de eu ter um contrato em mãos deveria tornar o processo imediato. Mais uma vez citei a central, que informou que minha conta deveria ser aberta imediatamente. Nisso, o atendente (já bastante chateado e decepcionado com a trágica perspectiva de não poder dar vazão a todos os preceitos burocráticos que aprendeu) disse que só poderia agilizar meu processo se eu comprasse algum serviço do banco, pois essa era uma premissa indispensável para a abertura imediata de contas. Perguntei em qual momento não ficou claro que não quero comprar produtos ou me tornar cliente, e recebi de volta um sorriso amarelo e uma promessa de que meu caso seria considerado "especial" e, portanto, "priorizado". Mentalizei o nome de todos que me atenderam e relatei esse novo atendimento à ouvidoria, que prometeu apurar o caso e advertir os envolvidos - embora seja bem possível que nada aconteça, afinal de contas, os funcionários estão se empenhando, com aquela simpatia mórbida e confortável, para serem bons funcionários dentro do que o funcionalismo bancário prega.

A questão é que, com tudo isso, queria passar algumas informações que aprendi lidando com bancos:

1. Não parece, mas você tem direitos. Você não é obrigado a comprar pacote de serviços de um banco, por mais que lhe jurem, afirmem, chorem e façam beicinho dizendo o contrário (indiferentemente da modalidade de abertura);

2. Ao abrir uma nova conta apenas para receber salário (no caso de você ter contrato ou trabalhar como CLT), você tem a opção de solicitar uma conta-salário, na qual não será cobrado nenhum serviço de você;

2. Quando você já tiver uma conta aberta e uma empresa na qual você trabalha (com contrato ou CLT) exige a abertura de uma nova conta, você tem a opção de solicitar a portabilidade dessa nova conta para outra na qual você seja correntista, sem nenhum encargo. Um exemplo: você é correntista do Banco X, mas precisa abrir conta no Banco Y para receber da Empresa Z, na qual você acabou de ser admitido. Você pode ir à agência do Banco Y e dizer que deseja fazer a portabilidade para o Banco X. Assim, você não precisa se preocupar em movimentar várias contas: o seu salário vai direto para o Banco X no dia do seu pagamento, e você continuará pagando apenas as taxas de serviço (se você tiver contratado) de seu antigo banco, sem as tarifas automáticas que a nova conta debitaria de seus rendimentos.

4. Se você não curte doses cavalares de adrenalina na sua vida monetária, informe presencialmente ao seu gerente que hoje, amanhã e sempre você não deseja ter limite de crédito no cheque especial. Diga que você não quer limite nenhum e tenha em mente que você não precisa dar mil justificativas por isso.


Essas são informações que o banco não divulga (por motivos óbvios), mas que existem e devem ser exploradas. Se você, assim como eu, quer se ver longe da burocracia kafkiana das instituições bancárias e prefere gastar seu dinheiro - mesmo quando se trata de "míseros R$ 9,90" - em jujubas, sorvete, josé cuervo ou DVDs de promoção na Americanas, reclame, bata pé, volte duas, três, quatro vezes na agência e faça valer seus direitos. Acredite: vale muito mais a pena ter dor de cabeça para abrir uma conta corrente sem taxas de serviços do que naufragar no abismo insano de siglas debitadas mês a mês sobre seu suado e valioso dinheirinho (ao menos o meu é!).