sábado, 27 de novembro de 2010

No ônibus.

Ontem, como de costume, eu sentei no banco logo depois da catraca, naquele assento solitário. Coloquei o fone, aumentei o volume. Uns 10 minutos depois, uma moça toda desajeitada tentava manter o equilíbrio segurando a mochila enorme que se soltava de um ombro e a garrafinha de água que ameaçava cair enquanto se esforçava para validar sua passagem com o bilhete que estava dependurado em seu pescoço. Assim que passou a catraca, parou ao meu lado e, ao ver que seria difícil para ela se ajeitar sem ajuda, pedi a mochila, que coloquei em meu colo. Nisso, a menina me olhou com raiva, dessa raiva que beira um choro, um ataque histérico, um palavrão bem cabeludo. Eu não perguntei o motivo, "tanto faz, deve ser louca". Um tempo depois, algum banco ficou vago em outro lugar e a menina se abaixou com raiva para pegar a mochila. Daí eu li o que estava escrito naquele crachá dependurado no pescoço dela: "mãe paulistana". Isso me fez supor que o motivo da raiva era ninguém ter cedido lugar a ela, que era gestante - embora magrinha e muito jovem.

Depois disso, senti uma pena absurda da menina. Não porque ela estava em pé ou porque parecia desamparada, mas porque ela era, assim, tão pequena, tão tola de reduzir o mundo a uma conspiração gigantesca que ela própria criou. O mundo não formalizou nada, ninguém entendeu nada, não foi dita uma única palavra, o vento não soprou contra, mas a cabeça dela transformou toda uma situação banal em apocalipse.

Na verdade, eu senti muita pena de mim mesma, porque entendi perfeitamente tudo o que ela sentiu.