sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Quatro cachorros.

Eram quatro cachorros esticando o gato como se fosse um novelo. Pedi ao Felipe para parar o carro, espantamos os bichos, mas era tarde. Era uma gata grande e peluda, branca de patinhas pretas e aparentemente prenhe - o que justificaria ter sido apanhada pelos bichos, por conta da sua condição vagarosa.

Ficamos sem reação e voltamos, impotentes, para casa.

Mudamos de assunto, coloquei o antúrio na varanda, chequei planta por planta, vesti a pantufa, coloquei o leite na geladeira, conversamos sobre a viagem, planejamos outra na sequência, falamos futilidades, liguei a tevê. Mas não consegui tirar a imagem da cabeça por um único instante - e aqui estou.

Não eram quatro babacas homofóbicos, quatro torcedores selvagens, quatro skinheads sanguinários; eram quatro vira-latas comuns - que saíram lado a lado pela ruazinha estreita, depois de estraçalhar um gato, como se fossem quatro amigos voltando de uma farra no bar.

Você vai dizer que eu sou alienada, inocente, cretina, que preciso conhecer Angola, Haiti, perder a casa num vendaval, morrer de cólera, pegar fila do SUS, engravidar de traficante, ser estuprada pelo padrasto, o caralho a quatro, mas foi a primeira vez que eu senti de verdade que tudo está irremediavelmente perdido.