sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Lixo extraordinário.

Nos primeiros instantes de documentário, a sensação que tive foi a de que eu não ficaria mais de dez minutos na sala de exibição. Em primeiro lugar, porque acho muito problemático um documentarista tentar se sobressair ao objeto documentado. Vik Muniz, como faz questão de enfatizar ao líder comunitário Tião, saiu de bairro humilde, venceu na vida (american boring dream) e se tornou o artista plástico brasileiro que mais vende seu trabalho no mundo – informação que dá a deixa para todo o festival de falsa modéstia e deslumbramento que serão exercidos ao longo da projeção; em segundo, porque achei incômoda a narração bilíngue em um documentário essencialmente brasileiro (apesar das parcerias internacionais). Com isso, a mensagem não poderia ser mais clara: export only – ideia que o Oscar comprou. Mas a questão é que, à parte o egocentrismo do documentarista disfarçado de identificação, com direito a reencontro com o bairro pobre de origem (domingo legal), em algum momento os catadores de recicláveis roubam a cena, e aí está o aspecto fascinante: a mudança súbita de tom a partir do momento em que Vik Muniz, até então com ares de desbravador europeu em contato com o bom selvagem, deixa de ser o foco. A história de como Tião passou a se interessar por livros ao encontrá-los espalhados pelo aterro, da moça apaixonada que foi abandonada pelo amante logo após fazer uma tatuagem com o nome dele, do catador idoso que tinha muito orgulho de seu ofício e as explicações cuidadosas sobre a importância do trabalho seletivo se misturam a relatos de pessoas que trabalham ali por falta de expectativas – e que veem na presença da equipe de Vik Muniz a possibilidade de ter um novo rumo. É uma mistura de sensações que proporciona um mosaico muito mais rico que o frágil foco de glamourizar o gigantesco aterro sanitário de um bairro carente da cidade maravilhosa. Ao final, tem-se a impressão de que até o artista plástico se dá por vencido, dando aos reais protagonistas mais espaço para revelarem suas expectativas e planos. Se a ideia era transformar lixo em artigo de luxo arrematado por minifortunas para espetacularizar uma situação de abandono social – com a qual Vik pouco teve contato e na qual os próprios personagens não veem nenhum glamour –, o documentário se mostra valioso por mostrar sonhos e fraquezas de pessoas simples que, ao contrário do ideal romântico do documentário, são tão humanas, complexas e sonhadoras como cada um de nós, mas que vivem em uma condição adversa: lidar com tudo o que ninguém mais quer e, por conseguinte, serem também matéria de pouco interesse. Em resumo, por fatores que possivelmente fogem ao propósito, achei, por toda a metalinguagem involuntária, um bom documentário.