sexta-feira, 20 de maio de 2011

Porque sim.

Tem aquela amiga, D., que sempre detestou a mãe. Brigavam, gritavam, faziam juras de ódio eterno, feriam-se publicamente expondo as misérias uma da outra. Simplesmente se odiavam, não conseguiam dividir o mesmo espaço por alguns segundos sem se machucarem. Um dia, D. foi pra outra cidade; a mãe, pra outro estado. Ficaram tempos sem se ver, até que a mãe sucumbiu a um câncer antigo que, supostamente, estava curado. Tempos depois, muito tempo depois, D. sente uma saudade inexplicável da mãe. Uma saudade doída, difícil de suportar. Não sabe explicar o motivo. Não há motivo, senão alguma coisa que só ela sente, mas que não pode ser transposta por não ser racional, compreensível. Por não caber em palavras.

Naquele filme do Rohmer de que eu tanto gosto, Conto de inverno, Félicie um dia se dá conta de que as coisas só fazem sentido quando... fazem sentido. A personagem, então, descobre que não precisa escolher entre opções reais que não são plenas, passionais, desmedidas. Precisa obedecer apenas ao que lhe faz sentido, ainda que esse sentido, tão forte, tão visceral, seja inexplicável e virtual. Ainda que o que faça sentido o faça apenas "porque sim".

"Porque sim" é uma expressão justa, porque não há explicação material - palavras, gestos, alegorias - que encerre o que realmente é capaz de mover alguém, de alimentá-lo, de provocá-lo. Isto é a paixão: aquilo que o é enquanto não podemos aprisionar numa caixa de letras. "Porque sim" não é estático, não é perfeito, não é classificável, não é automatizável, não é certeza, não é escolha, não é racional. É inominável. É qualquer coisa pela qual valha viver, sofrer, machucar, chorar, rir. Não tem cura e, quando tem, é porque entrou para o universo de coisas explicáveis e, por isso, comuns, superadas, medíocres. Só o "porque sim" - aquilo que ninguém pode nomear e tornar compreensível - pode ser verdadeiro.

E isso tudo pode soar o mais medíocre achismo, clichê puro, egocentrismo pseudopoético, mas foi exatamente nesta noite insone que o "porque sim" fez o maior sentido pra mim. Simplesmente porque sim.