quinta-feira, 7 de julho de 2011

Comediantes não merecem prisão; Rafinha Bastos, sim.

O assunto da tarde foi o pedido de abertura de inquérito policial, por parte do Ministério Público, contra Rafinha Bastos por conta de sua infeliz piada (?) sobre quão louvável é a atitude de um estuprador que ataca mulheres feias, ato que, segundo o comediante, seria digno de abraço. Tenho uma preguiça absurda de falar de CQC e afins e, via de regra, de qualquer programa humorístico tupiniquim atual, mas acho, realmente, que há de se encontrar meios de delimitar o que se entende hoje em dia, de maneira absurdamente distorcida, como liberdade de expressão. Liberdade de expressão, por princípio, não deve ferir direitos humanos, incluindo aqueles tão difíceis de se garantir, como os direitos da mulher. E não deve interferir na liberdade, de nenhuma maneira, de quem não tem voz para se expressar, o caso de muitas mulheres que sofrem, caladas, agressões de estranhos e de seus parceiros, de criaturas primitivas que adoram esse tipo de humor e o enxergam como uma piscadinha de olho toda especial.

O problema da maioria das piadas dos "senhores" do stand-up comedy daqui (pois é a eles que me refiro neste texto) é o fato de ser ruim demais, sem graça. De ferir pela baixa qualidade antes de ferir pelo conteúdo. Nada de humor refinado, sacadas reflexivas ou nonsense despretensioso: o lance é chocar, gerar mídia, repercussão. Virar notícia. Além disso, o humor é visto como carta branca para transgredir o direito de respeitar convenções - sem sequer ter o pretexto da arte. No caso da "piada" sobre estupro, o que se vê é o machismo gratuito, perigoso por ser engraçado apenas para machistas, ou por aqueles que estão aí, na pista, descobrindo todo o potencial violento e aconchegante que o machismo tem para oferecer. É perigoso por reforçar uma irmandade que deveria ser enfraquecida. Anos e anos se passam, e as conquistas femininas caminham a passos muito lentos para que se admitam retrocessos desse tipo.

Gilberto Dimenstein, há pouco, disse que expor o comediante às críticas é o bastante, considerando exagerado o fato de a frase ter se tornado caso de polícia. Já eu acho que é, sim, caso de polícia. Numa sociedade deliberadamente machista - na qual, inclusive, muitas mulheres têm a mentalidade de um homem das cavernas - qualquer invasão nos direitos femininos, e humanos como um todo, merece, sim, punição. A arte não redime ninguém. Isso que Rafinha Bastos e companhia fazem, que sequer lembra arte, mereceria punição dupla: por enraizar preconceitos que só precisam de uma faísca para virarem incêndio e por não ter graça nenhuma.

Comediantes não merecem prisão; Rafinha Bastos, sim. Por ser duplamente cretino.